Julio Cezar da Silva Paul



Data da postagem: 08/08/2018

 

Corridas de rua: De paixão a profissão

Era uma madrugada de agosto/1980, no Rio de Janeiro, dia dos pais. Me vi deitado sobre uma maca de hospital. Rosto, braços e parte do peitoral ainda manchados de sangue, proveniente dos cortes que os estilhaços do para brisas do Fusquinha que dirigia, me causaram. Naquela madrugada, acabei dormindo ao volante. Mas estas não eram as lesões mais graves. Braço direito e duas costelas quebradas, além de uma fratura exposta no fêmur (a haste de 40 cm, continua aparafusada em minha perna direita, como um troféu) também fizeram parte da lista.

Confesso, mesmo participando de várias provas de atletismo escolar, mais novo, não achava graça nas corridas de rua – que estava começando a ganhar adeptos no início da década -. Neste contexto, o médico que me tratava teve essencial participação. Num dia, dos três meses que passei internado e mobilizado, ele afirmou que dificilmente eu voltaria a andar sem apoio de muletas ou bengala, por exemplo.

Apesar da ‘agressividade’ que aquilo teve pra mim, um jovem de 24 anos, ativo e com muitos sonhos, recém-formado no curso de Ciências Biológicas, consegui andar sem utilização de nenhum aparelho, oito meses depois.

E lá se foi mais um ano de trabalho duro e contínuo para recuperar toda a musculatura atrofiada pela inatividade. Foi quando surgiu a corrida.

Um dos meus orientadores na academia, corredor de maratonas, me estimulou a correr para contribuir no fortalecimento e melhoria do condicionamento físico geral.

Por isso, dois anos depois, estive numa consulta com o mesmo médico. Na oportunidade, levei, de presente, um cartão carimbado (na época não recebíamos medalhas de participação), contendo colocação geral e tempo de conclusão da minha primeira meia maratona do Rio de Janeiro. Quando entrei em seu consultório, fiz um breve relato do acontecido anos antes, e entreguei o presente. Lógico que, com alguns ‘conselhos’ sobre como tratar um ser humano naquele estado, junto. Foi a última vez que nos vimos.

Ainda em 1982, morava no Rio de Janeiro. Pelo menos uma vez por mês tinha corrida no Aterro do Flamengo. E, as minhas preferidas eram as de 5km e 10 km.

Quando me mudei para Vitória/ES, em 1984, transferido pela empresa que trabalhava, acabei diminuindo minhas participações, pois ainda não era muito comum esta prática (as 10 milhas Garoto só veio em 1989) por aqui. Uns poucos, que praticavam e treinavam, eram chamados de malucos por correr pelas ruas sem um destino.

No final dos anos 90, embora as maratonas fossem meu sonho, me contentava com provas menores, em razão de ter pouco tempo para me dedicar aos treinos mais duros que esta distância exigia. Trabalhava como representante comercial e viajava muito.

Em janeiro de 2000, fui convidado por um amigo para participar da Maratona dos 500 anos do Descobrimento, no Rio de Janeiro, que era completamente diferente dos dias atuais. A largada era no bairro do Leme e terminava onde é hoje, no Aterro do Flamengo.

Pronto! Daí, só não fiz a maratona do Rio de Janeiro, em 2009. Sendo surpreendido por uma trombose, enquanto corria a maratona de Porto Alegre, ainda resquício do acidente. Foram mais nove meses inativos, me tratando.

Quando retornei as atividades esportivas em 2010, as maratonas e ultramaratonas passaram a ser meu foco.

Atualmente, estou com 55 participações em maratonas e várias ultramaratonas de quilometragens diversas (nacionais e internacionais). Mas, a maratona do Rio, sempre foi minha paixão. E, junto com alguns amigos em 2012, começamos a dobrar (84 km) este belíssimo percurso.

Saindo do Aterro do Flamengo às 02:00 horas da manhã, fomos no sentido contrário da prova em direção ao Recreio dos Bandeirantes e quando foi dada a largada oficial da maratona, retornamos ao Aterro, junto com os demais atletas. E assim me mantive, nos anos seguintes, dobrando o percurso (2013, 2014, 2015, 2016, 2017).
Este ano não dobrei, porém me deleitei com o Desafio, proporcionado pela organização. Correr 21 km no sábado e 42 km no domingo. Foi mágico!

Quando comecei a me aproximar da aposentadoria, cansado das viagens de trabalho, em conversa com meu treinador, amigo e quase irmão, professor Hudson Simões, da Assessoria Multiesportiva, me ofereci para trabalhar com ele nos treinamentos dos alunos da equipe de corrida, repassar um pouco da experiência que acumulei nos 30 anos de corridas. E, de pronto ele me acolheu. Voltei aos bancos da escola para cursar Educação Física e poder transmitir com propriedades acadêmicas as experiências vividas pelos anos como atleta. E, principalmente, expor o mínimo possível os alunos às lesões. Acredito que, no meu caso, a genética ajudou nunca ter lesionado em corridas, em virtude de muitos dos treinos que fiz não tendo nenhuma base científica.

Hoje, de cima dos meus 62 anos, sinto-me recompensado com tudo que recebi dos meus treinadores, professores, amigos e alguns corredores ao longo dos anos. Principalmente porque, quando comecei na década de 80, não existia internet e outras fontes de informação tão acessíveis. Era na base da experiência, do erro e acerto.

Em paralelo, porém, também me pego preocupado, em ver atletas amadores se arriscando em provas de longa distância. Alguns com menos de um ano de experiência em corridas, sem o preparo mental que estas exigem e, principalmente, o musculoesquelético adequado.

Atualmente, continuo exercendo a profissão de Educador Físico na Assessoria Multiesportiva como professor/treinador de corridas e caminhadas.

Concluo esta viagem de quase 40 anos, convicto de que escolhi os caminhos certos, mas os caminhos errados também. Afinal, foram estes que geraram os melhores frutos do meu aprendizado. Espero, que para os que se arriscaram nessa leitura, eu possa ter contribuído e despertado bons pensamentos para que nunca desistam!

Julio Paul é Ultramaratonista, Professor de Educação Física e Coach da Assessoria Esportiva MULTIESPORTIVA

 

 



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